YouTuber: de hobby a profissão

O que começou como simples diversão tornou-se um negócio rentável e vem garantindo o sustento de jovens empreendedores

 

capa youtubers

Já foi o tempo em que as pessoas divulgavam seus vídeos somente por passatempo ou em troca de popularidade. Agora, elas estão ganhando dinheiro ao comentar jogos, falar de cultura pop, fazer comédia ou mostrar seu jeito especial de fazer alguma coisa, criando conteúdo exclusivo para o YouTube. Os chamados youtubers, ou vlogueiros, geralmente são jovens que começaram a produzir vídeos caseiros por diversão e hoje encaram o assunto de maneira muito mais séria – de fato como uma profissão –, pois conseguem uma remuneração mais do que suficiente para manter suas despesas em ordem.

Não é à toa que o número de youtubers cresce cada vez mais. No Brasil, a audiência da internet é maior que a da TV desde 2013 e, nos Estados Unidos, o site de vídeos da Google sozinho bateu o público da TV em 2014. Dentre as redes sociais, um estudo da Kissmetrics mostra que o YouTube é a que mais retém a atenção das pessoas, que passam uma média de 3 minutos e 49 segundos no site, mais do que no Facebook, Twitter ou Instagram.

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“As crianças hoje em dia tem muito acesso à tecnologia. A TV para alguns é obsoleta. Só para na frente da TV se quiser ligar o computador. A gente vê canais cortando programas infantis. Quem supre isso somos nós. Quando eu era menor, eu gostava muito da Xuxa. E hoje eu vejo que nós, youtubers, somos a Xuxa dessa galera”, explica Malena Nunes. A jovem, de 19 anos, produz vídeos há três anos, nos quais ensina a jogar games. Seu canal no Youtube, Malena0202, possui 700 mil assinantes e vídeos que chegam a nove milhões de acessos por mês.

Os vídeos são monetizados de acordo com as visualizações, curtidas e engajamento. Por isso, não basta criar qualquer vídeo e disponibilizá-lo na rede. É importante que tenha um conteúdo relevante, cativante e que provoque no usuário a vontade de compartilhar.Outra forma rentável são os anúncios que aparecem nos vídeos. Através do programa Google Adwords, cada vez que um anúncio desses é clicado, o anunciante paga um determinado valor para o Google, através do programa de links patrocinados AdWords. Se o clique no anúncio for na sua página, você leva uma parcela desse pagamento.

Apesar de não gostarem de comentar sobre os valores negociados, alguns destes profissionais revelam que ganham o suficiente para bancar gastos pessoais como faculdade, diversão, e ainda sobra para ajudar em casa de vez em quando. Segundo levantamento, uma pessoa que possui entre 500 mil e 1 milhão de inscritos pode ganhar de R$ 6 mil a até R$ 50 mil por mês, contando apenas a receita gerada por anúncios.Além do retorno financeiro, muitos deles transformam-se em verdadeiras celebridades, fazendo a cabeça da garotada na vida real e mobilizando milhares de jovens que querem tirar uma foto ou conversar com o ídolo da internet.

“Sou gente como todo mundo. Fico o dia inteiro no meu quarto e quando saio para um evento, fico até assustada. Ainda não me acostumei com esse fato”, diz Malena. Ela conta que a ficha do alcance do seu canal caiu quando marcou um piquenique. “Eu e mais o pessoal de dois canais falamos que íamos ao Ibirapuera. Apareceram quase duas mil pessoas. Acabamos sendo retirados do parque pela Polícia Civil.”Até mesmo em uma viagem de férias à Disney, nos Estados Unidos, ela foi reconhecida várias vezes por fãs.

No entanto, engana-se quem pensa que produzir vídeos para o YouTube seja uma simples tarefa, uma vez que exige um bom investimento em computador, câmeras, editores de vídeo, internet de velocidade rápida e equipamento de som. “Eu não consigo assistir a um vídeo que tem um áudio ruim. Tem que investir. É um emprego como qualquer outro e você tem que procurar melhorar”, argumenta Malena. E o trabalho é árduo. De segunda a segunda, ela produz por dia dois vídeos de dez minutos cada e leva seis horas para gravar, editar e sonorizar. E a jovem ainda reforça: “É um trabalho 24h por dia. Você não desliga. Eu não consigo dormir sem abrir um gerenciador de vídeo para ver se a galera está gostando do vídeo. E aí já tenho que procurar um conteúdo novo que a galera não viu ainda. É um trabalho, mas é um filho.”

 

Os youtubers não são notórios apenas em terras brasileiras. Em agosto de 2014, a revista norte-americana Variety realizou uma pesquisa com 1500 jovens americanos com idades entre 13 e 18 anos. Uma lista de 20 celebridades (10 do YouTube e 10 do “mundo real”) foi apresentada e eles deveriam colocá-las em ordem de preferência. O resultado mostrou que youtubers são mais populares entre os jovens do que as celebridades tradicionais. PewDiePie, o terceiro lugar da lista da Variety, é o canal mais seguido do Youtube em todo o mundo, com quase 33,5 milhões de inscrições. É produzido por Felix Kjellberg, um rapaz sueco de 24 anos, que comenta games enquanto os joga. Segundo o The Wall Street Journal, Kjellberg já fatura cerca de 4 milhões de dólares por ano.

Recentemente, Google divulgou a lista dos 10 canais brasileiros que mais cresceram na rede em 2014 – os mais “populares”. O humor é a aposta da maioria deles. Quanto aos critérios, não foi levado em consideração apenas o número de inscritos, mas também o engajamento, como comentários e quantidade de curtidas, além do número de visualizações no ano.

 

Ajuda profissional

Para se destacar da massa, muitos produtores de vídeo buscam se profissionalizar. E, com essa brecha aberta, diversas empresas assumiram a missão de tornar sustentável a carreira de milhões de jovens promissores na internet. São as chamadas networks, empresas independentes credenciadas pelo Google para gerenciar canais do YouTube e a publicidade veiculada neles, além de oferecer melhor estrutura e suporte técnico para a produção de conteúdo. Em troca, abocanham 16,5% da receita gerada pela audiência e pelos produtos anunciados. O Google fica com 45%, e o produtor, 38,5%.

No exterior, essa prática já é comum há alguns anos e exemplos consolidados de sucesso são a Style Haul, focada em moda e beleza; Machinina, voltada para jogos; e a Big Frame, da DreamWorks, com conteúdo diversificado. O crescimento brasileiro no ramo é tão notório, que as três empresas estão olhando com interesse para o país e já começaram a recrutar canais brasileiros para expandir suas redes.

Das nascidas em terras tupiniquins, duas networks vêm se destacando atualmente, a Amazing Pixel e a ParaMaker. “Estamos profissionalizando esse novo mercado que tem muita gente querendo crescer, mas não sabe como. A network veio para fazer esse meio campo”, diz Alexandre Ottoni, que juntamente com Deive Pazos, a dupla do famoso site de cultura pop Jovem Nerd, agora também é responsável pela Amazing Pixel. A rede, fundada em outubro de 2013 e que conta, por enquanto, com apenas 12 canais, se especializou em buscar empresas interessadas em anunciar seus produtos durante os vídeos – e não em banners. Apesar de menor volume, a prática gera mais receita, dividida apenas entre produtor e network, além de melhores resultados para as marcas. “A gente faz mídia direcionada e cada canal tem uma linguagem diferente. É muito mais trabalhoso”, explica Pazos. Para ele, trabalhar com um atendimento mais pessoal, diferente de como ocorre nas grandes redes, é o que permitirá o crescimento da empresa.

Já considerada uma dessas grandes redes, a ParaMaker foi criada há pouco mais de dois anos por Felipe Neto, a partir de um acordo entre sua produtora, a Parafernalha, e a americana Maker Studios. Atualmente, a empresa já possui quase quatro mil canais para cuidar e sua receita cresceu cerca de 700% entre um ano e outro. Neto foi um dos primeiros brasileiros a se tornar popular no YouTube – hoje possui mais de 3,3 milhões de inscritos em seu canal pessoal – e agora, a frente da Parafernalha, segundo canal mais popular do Youtube, e da rede de canais ParaMaker, é um jovem empresário, de apenas 26 anos, e um exemplo de que é possível, de fato, viver do YouTube.

 

Confira na galeria alguns Youtubers de sucesso:

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Autores: Bárbara Mello, Fernanda Bertoldo, Mariana Galvani, Natália Oliveira e Thiago Ladeira

* Texto produzido com finalidade acadêmica.

Natália Oliveira

Natália Oliveira é Comunicadora, publicitária, idealizadora e editora do Portal de Comunicação on d-line, estudante de pós em Marketing Digital e apaixonada por tecnologia, redes sociais e comunicação.